O alívio rápido proporcionado por alguns colírios pode ter consequências graves para a saúde dos olhos. Medicamentos à base de corticoides, quando utilizados sem acompanhamento médico ou por períodos prolongados, podem aumentar a pressão ocular e favorecer o desenvolvimento do glaucoma, doença que afeta o nervo óptico e está entre as principais causas de cegueira irreversível no mundo.
O alerta é da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), que tem chamado a atenção para os riscos da automedicação e do uso indiscriminado desses medicamentos.
O glaucoma é uma doença caracterizada pela lesão progressiva do nervo óptico, responsável por transmitir as informações visuais ao cérebro. Em muitos casos, o problema está associado ao aumento da pressão dentro dos olhos e pode evoluir de forma silenciosa, sem sintomas nas fases iniciais.
Segundo a SBG, cerca de 1,7 milhão de brasileiros convivem com a doença. Em escala mundial, o glaucoma é considerado a principal causa de cegueira irreversível e pode atingir mais de 111 milhões de pessoas até 2040. Atualmente, estima-se que aproximadamente 11 milhões de pessoas já tenham perdido a visão dos dois olhos em decorrência da doença.
De acordo com o médico residente em Oftalmologia do Hospital Universitário Presidente Dutra, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Dr. Alexandre Diniz, o uso prolongado de corticoides pode alterar mecanismos responsáveis pelo controle da pressão ocular.
“O corticoide provoca alterações no sistema responsável pela drenagem do líquido intraocular. Com a dificuldade de escoamento desse líquido, ocorre o aumento da pressão dentro do olho, o que pode favorecer o surgimento do glaucoma”, explicou.
Dados citados pela Sociedade Brasileira de Glaucoma indicam que entre 30% e 40% das pessoas que utilizam corticoides podem apresentar elevação da pressão intraocular durante o tratamento. Em parte desses pacientes, o aumento é significativo e pode resultar em danos permanentes ao nervo óptico.
O médico ressalta ainda que nem todos os pacientes apresentam o mesmo risco de desenvolver complicações. Fatores como predisposição genética, histórico familiar de glaucoma, cirurgias oftalmológicas prévias, traumas oculares, potência do medicamento e tempo de uso podem aumentar a vulnerabilidade.
“Pessoas que já possuem glaucoma, que passaram por cirurgias oftalmológicas, sofreram traumas oculares ou apresentam predisposição genética à sensibilidade aos corticoides devem ter atenção redobrada. Nesses casos, a elevação da pressão ocular pode ocorrer de forma mais intensa”, afirmou.
Além do glaucoma, o uso prolongado de corticoides também está associado ao desenvolvimento de catarata, doença que provoca o embaçamento progressivo da visão. Segundo a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP), esse efeito adverso pode ocorrer tanto em adultos quanto em crianças e, em muitos casos, ser evitado com o uso adequado da medicação e acompanhamento médico.
Doença pode evoluir sem sintomas
Uma das principais preocupações dos oftalmologistas é que o aumento da pressão ocular geralmente não provoca dor nem sintomas evidentes nas fases iniciais. Como consequência, muitos pacientes continuam utilizando a medicação sem perceber que estão desenvolvendo alterações capazes de comprometer a visão.
“O grande problema é que o aumento da pressão ocular pode ocorrer sem sintomas perceptíveis. Muitas vezes, o paciente continua utilizando o medicamento sem saber que está sofrendo danos progressivos no nervo óptico. Quando percebe a perda visual, o comprometimento pode ser irreversível”, alertou o Dr. Alexandre Diniz.
Além do glaucoma, o uso inadequado de corticoides também pode favorecer o surgimento de outras complicações oculares.
“O uso inadequado dessas medicações pode contribuir para o surgimento de infecções oculares, úlceras de córnea e ceratites. Por isso, nenhum colírio deve ser utilizado sem avaliação médica prévia”, ressaltou.
Outro cuidado importante, segundo o especialista, é não interromper tratamentos prolongados sem orientação profissional.
“A interrupção abrupta de tratamentos prolongados pode causar efeitos indesejados. Por isso, tanto o uso quanto a retirada dessas medicações devem ocorrer sob supervisão médica”, acrescentou.
Impacto vai além da saúde ocular
O uso indiscriminado de corticoides é considerado um problema de saúde pública. A perda de visão está associada à redução da qualidade de vida, perda de autonomia, dificuldades para o trabalho e aumento da necessidade de cuidados e reabilitação.
Além dos impactos para pacientes e familiares, o avanço de doenças oculares evitáveis gera aumento da demanda por consultas, exames, cirurgias e tratamentos especializados, pressionando os sistemas de saúde.
Diante desse cenário, a Sociedade Brasileira de Glaucoma, o Conselho Brasileiro de Oftalmologia e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica defendem medidas que ampliem o controle sobre a venda de medicamentos à base de corticoides, além de ações de conscientização voltadas tanto para profissionais da saúde quanto para a população.
Acompanhamento médico é a melhor prevenção
O Dr. Alexandre Diniz orienta que pessoas que utilizam corticoides por períodos prolongados realizem acompanhamento oftalmológico regular, com monitoramento da pressão intraocular, especialmente aquelas que fazem parte dos grupos de maior risco.
“A recomendação é manter acompanhamento regular com o oftalmologista e jamais utilizar corticoides ou outros colírios sem indicação de um especialista. O diagnóstico precoce e o acompanhamento adequado são fundamentais para preservar a saúde da visão”, concluiu.


