Dança tradicional ligada ao Divino Espírito Santo viraliza após vídeo de ensaio ser divulgado nas redes.
-fevereiro 13, 2026
Dança tradicional ligada ao Divino Espírito Santo viraliza após vídeo de ensaio ser divulgado nas redes.
A divulgação de um vídeo do ensaio do Cacuriá do Candinho, da cidade de Paço do Lumiar, publicado na última quarta-feira (28), na plataforma X (antigo Twitter), por um dos integrantes do grupo, viralizou e ganhou notoriedade nacional de uma das expressões culturais mais tradicionais do Maranhão.
O vídeo chegou a alcançar mais de 1 milhão de visualizações em poucos dias, despertando curiosidade, elogios e até surpresa entre pessoas que nunca haviam visto a dança.
Nas imagens, os integrantes dançam em roda, em uma coreografia marcada por sincronia, movimentos intensos de quadril e constantes trocas de olhares. A sensualidade e os duplos sentidos, características próprias do cacuriá, chamaram a atenção de internautas de diferentes regiões do Brasil e também do exterior.
Nos comentários, muitos usuários afirmaram nunca ter visto algo semelhante. Elogios ao gingado, à energia e à expressividade da dança se espalharam pelas redes sociais, despertando curiosidade sobre a cultura do Maranhão e suas manifestações populares.

Fundado em 2015, na comunidade do Zumbi dos Palmares, em Paço do Lumiar, o Cacuriá do Candinho nasceu do desejo de criar um espaço cultural dentro da própria comunidade. Candinho Amorim, maranhense natural de Pedreiras, veio para São Luís para estudar e foi nesse período que a ideia começou a ganhar forma.
“Comecei a frequentar alguns grupos juninos nesse período, bumba-meu-boi e cacuriás, mas surgiu a vontade de fazer um grupo dentro da minha comunidade, onde sempre teve muitos jovens para participar. Então surgiu o Cacuriá do Candinho, na comunidade, em 2015”, conta.

Os primeiros ensaios aconteceram de forma simples, com apoio dos próprios brincantes. Aos poucos, o grupo cresceu, passou a circular por novos espaços e atraiu novos dançarinos. A conquista da sede própria marcou um ponto de virada. Desde 2024, o Cacuriá do Candinho realiza ensaios e atividades culturais em um espaço fixo, reafirmando-se como referência local.
Apesar disso, a viralização nas redes sociais pegou Candinho de surpresa. “Achei o máximo, pois além de elevar e valorizar o grupo, estamos expandindo a cultura maranhense, em especial o cacuriá, que é um ritmo tão gostoso de dançar. Nunca esperamos uma repercussão de grande proporção, mas aconteceu. Com certeza, a consequência é uma temporada linda que está por vir neste São João 2026”, projeta.
Atualmente, o grupo reúne 48 homens e 42 mulheres na dança, além de 10 integrantes na percussão ao vivo. O crescimento também trouxe novas perspectivas. Para o São João 2026, a expectativa é de uma temporada intensa.
“Os planos são de um São João 2026 cheio de apresentações e, se Deus quiser, começar a levar o Cacuriá do Candinho para fora do estado do Maranhão, aproveitando a repercussão dos vídeos na internet”, diz o fundador.
Mais do que uma coreografia, o cacuriá está enraizado nas festas do Divino Espírito Santo, uma das celebrações mais tradicionais do Maranhão. A religiosidade é a base da manifestação e se expressa na dança das caixeiras, rito em que mulheres entoam cânticos de louvação e conduzem o ritmo da celebração.
O cacuriá acontece após a derrubada do mastro, a vara ornamentada que sustenta a bandeira do Divino, quando a solenidade religiosa se transforma em celebração popular. Nesse momento, caixeiras e festeiros se reúnem para cantar, dançar e brincar ao som das caixas, em um clima de descontração que marca a transição entre o sagrado e o festivo.
Com rebolado característico e músicas de duplo sentido, a dança sempre dialogou com o chamado profano, desafiando visões morais conservadoras ao valorizar a sensualidade como parte da expressão cultural.
Executado em duplas organizadas em uma grande roda, conhecida como cordão, o cacuriá mistura passos previamente combinados com momentos de improviso, mantendo o tom brincante da manifestação. Provocações sutis e intensa interação com o público fazem parte da linguagem cênica, sempre conduzida com respeito entre os parceiros.
Musicalmente, o cacuriá reúne influências de marcha, valsa e samba. As caixeiras conduzem o ritmo e puxam as toadas, que falam da natureza, das tradições locais, das brincadeiras antigas e dos desejos populares. Uma voz inicia os versos, enquanto o grupo responde em coro, muitas vezes repetindo ou improvisando estrofes.
A criação do cacuriá é atribuída a Seu Lauro. Ao longo do tempo, porém, a dança ficou fortemente associada a Dona Teté, integrante do grupo original e um dos rostos mais emblemáticos da manifestação. Conhecida pela presença de palco, irreverência e estilo marcante, ela teve papel fundamental na difusão do cacuriá.