Dança tradicional ligada ao Divino Espírito Santo viraliza após vídeo de ensaio ser divulgado nas redes.
Dança tradicional ligada ao Divino Espírito Santo viraliza após vídeo de ensaio ser divulgado nas redes.
A divulgação de um vídeo do ensaio do Cacuriá do Candinho, da cidade de Paço do Lumiar, publicado na última quarta-feira (28), na plataforma X (antigo Twitter), por um dos integrantes do grupo, viralizou e ganhou notoriedade nacional de uma das expressões culturais mais tradicionais do Maranhão.
O vídeo chegou a alcançar mais de 1 milhão de visualizações em poucos dias, despertando curiosidade, elogios e até surpresa entre pessoas que nunca haviam visto a dança.
Nas imagens, os integrantes dançam em roda, em uma coreografia marcada por sincronia, movimentos intensos de quadril e constantes trocas de olhares. A sensualidade e os duplos sentidos, características próprias do cacuriá, chamaram a atenção de internautas de diferentes regiões do Brasil e também do exterior.
Nos comentários, muitos usuários afirmaram nunca ter visto algo semelhante. Elogios ao gingado, à energia e à expressividade da dança se espalharam pelas redes sociais, despertando curiosidade sobre a cultura do Maranhão e suas manifestações populares.

Fundado em 2015, na comunidade do Zumbi dos Palmares, em Paço do Lumiar, o Cacuriá do Candinho nasceu do desejo de criar um espaço cultural dentro da própria comunidade. Candinho Amorim, maranhense natural de Pedreiras, veio para São Luís para estudar e foi nesse período que a ideia começou a ganhar forma.
“Comecei a frequentar alguns grupos juninos nesse período, bumba-meu-boi e cacuriás, mas surgiu a vontade de fazer um grupo dentro da minha comunidade, onde sempre teve muitos jovens para participar. Então surgiu o Cacuriá do Candinho, na comunidade, em 2015”, conta.

Os primeiros ensaios aconteceram de forma simples, com apoio dos próprios brincantes. Aos poucos, o grupo cresceu, passou a circular por novos espaços e atraiu novos dançarinos. A conquista da sede própria marcou um ponto de virada. Desde 2024, o Cacuriá do Candinho realiza ensaios e atividades culturais em um espaço fixo, reafirmando-se como referência local.
Apesar disso, a viralização nas redes sociais pegou Candinho de surpresa. “Achei o máximo, pois além de elevar e valorizar o grupo, estamos expandindo a cultura maranhense, em especial o cacuriá, que é um ritmo tão gostoso de dançar. Nunca esperamos uma repercussão de grande proporção, mas aconteceu. Com certeza, a consequência é uma temporada linda que está por vir neste São João 2026”, projeta.
Atualmente, o grupo reúne 48 homens e 42 mulheres na dança, além de 10 integrantes na percussão ao vivo. O crescimento também trouxe novas perspectivas. Para o São João 2026, a expectativa é de uma temporada intensa.
“Os planos são de um São João 2026 cheio de apresentações e, se Deus quiser, começar a levar o Cacuriá do Candinho para fora do estado do Maranhão, aproveitando a repercussão dos vídeos na internet”, diz o fundador.
Mais do que uma coreografia, o cacuriá está enraizado nas festas do Divino Espírito Santo, uma das celebrações mais tradicionais do Maranhão. A religiosidade é a base da manifestação e se expressa na dança das caixeiras, rito em que mulheres entoam cânticos de louvação e conduzem o ritmo da celebração.
O cacuriá acontece após a derrubada do mastro, a vara ornamentada que sustenta a bandeira do Divino, quando a solenidade religiosa se transforma em celebração popular. Nesse momento, caixeiras e festeiros se reúnem para cantar, dançar e brincar ao som das caixas, em um clima de descontração que marca a transição entre o sagrado e o festivo.
Com rebolado característico e músicas de duplo sentido, a dança sempre dialogou com o chamado profano, desafiando visões morais conservadoras ao valorizar a sensualidade como parte da expressão cultural.
Executado em duplas organizadas em uma grande roda, conhecida como cordão, o cacuriá mistura passos previamente combinados com momentos de improviso, mantendo o tom brincante da manifestação. Provocações sutis e intensa interação com o público fazem parte da linguagem cênica, sempre conduzida com respeito entre os parceiros.
Musicalmente, o cacuriá reúne influências de marcha, valsa e samba. As caixeiras conduzem o ritmo e puxam as toadas, que falam da natureza, das tradições locais, das brincadeiras antigas e dos desejos populares. Uma voz inicia os versos, enquanto o grupo responde em coro, muitas vezes repetindo ou improvisando estrofes.
A criação do cacuriá é atribuída a Seu Lauro. Ao longo do tempo, porém, a dança ficou fortemente associada a Dona Teté, integrante do grupo original e um dos rostos mais emblemáticos da manifestação. Conhecida pela presença de palco, irreverência e estilo marcante, ela teve papel fundamental na difusão do cacuriá.