O episódio, que inicialmente parecia comum, ganhou contornos mais graves semanas depois
-janeiro 29, 2026
O episódio, que inicialmente parecia comum, ganhou contornos mais graves semanas depois
Desde o mês de dezembro, a rotina da família de Emmanuelle Mendes, moradora do bairro da Cohab, em São Luís, passou a ser marcada pelo medo e pela incerteza após a invasão de um morcego em sua casa. O animal foi atacado pelos gatos da família, que chegaram a ingerir partes do mamífero.
O episódio, que inicialmente parecia comum, ganhou contornos mais graves semanas depois, quando a proprietária, temendo que os animais tivessem sofrido algum dano, levou os restos mortais do morcego para análise e realização do teste de raiva na Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ) de São Luís, órgão vinculado à Secretaria Municipal de Saúde.
Nesse período, um dos gatos da família passou mal e morreu no dia 16 de janeiro, quatro dias antes da divulgação do resultado do exame. No dia 20 de janeiro, o laudo confirmou que o morcego estava positivo para a raiva.
Diante da confirmação, a preocupação da família aumentou, já que, durante o manejo do gato morto, a mãe de Emmanuelle, de 74 anos, foi arranhada no corpo.
Com receio de possível transmissão da doença, no dia 21 de janeiro, a professora divulgou um vídeo nas redes sociais pedindo ajuda. Por indicação de uma amiga veterinária, ela entrou em contato com o Programa de Vigilância da Raiva Urbana (PVRU), coordenado pela Secretaria de Estado da Saúde (SES-MA), em parceria com a Agência Estadual de Defesa Agropecuária (Aged).
Por meio do órgão, a família foi orientada de que todos os moradores da casa deveriam receber a vacina antirrábica e que a idosa, por ter tido contato por meio do arranhão, também deveria receber o soro antirrábico.
Seguindo o protocolo e em busca do tratamento indicado, ambas procuraram atendimento no Centro de Saúde Genésio Ramos Filho, no bairro da Cohab. No entanto, segundo Emmanuelle, a profissional de saúde que realizou o atendimento se recusou inicialmente a aplicar a vacina antirrábica.
“No atendimento, eles disseram que não iríamos tomar a vacina porque não tínhamos nenhum arranhão ou mordida”, relatou a professora.
Ainda no dia 21 de janeiro, Emmanuelle foi orientada a levar a mãe ao Hospital Municipal Dr. Clementino Moura, o Socorrão II, para aplicação do soro antirrábico. No entanto, novamente houve negativa por parte dos funcionários. A aplicação do soro só foi autorizada após intervenção direta de gestores do Programa de Vigilância da Raiva Urbana da Aged.
“Eles também estavam negando que minha mãe recebesse o soro. Alegaram que já havia passado muito tempo desde o contato com o morcego e que, por isso, não seria necessária a aplicação”, afirmou.
Por determinação do tratamento, os quatro moradores da residência seguem recebendo o esquema de vacinação antirrábica. Os animais domésticos que vivem na casa, sendo dois cães e dois gatos, que já eram imunizados contra a raiva, também receberam uma nova dose da vacina.
Com a confirmação de que o morcego estava positivo para a raiva, equipes da Unidade de Vigilância de Zoonoses (UVZ) passaram a visitar residências da vizinhança para ampliar a cobertura vacinal dos animais. Segundo Emmanuelle, no entanto, parte dos moradores da região tem se recusado a vacinar seus animais, o que aumenta a preocupação com novos riscos de transmissão da doença.

A Secretaria de Estado da Saúde (SES-MA), por meio de nota, reforça que todo contato com morcegos, mesmo sem mordida ou ferimento aparente, é considerado de alto risco para transmissão da raiva. Nesses casos, a recomendação é procurar imediatamente uma unidade de saúde para avaliação e início do Protocolo de Profilaxia Antirrábica, que prevê a aplicação de vacina e, quando indicado, do soro antirrábico.
A SES orienta ainda que, em situações de mordida, arranhão ou contato direto ou indireto com mamíferos potencialmente transmissores da raiva, a primeira medida deve ser lavar imediatamente o local com água corrente e sabão em abundância e buscar atendimento médico o mais rápido possível. No Maranhão, assim como em todo o país, é seguido o Protocolo Nacional de Profilaxia Antirrábica, estabelecido pelo Ministério da Saúde.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde de São Luís (Semus) informou que foi confirmado um caso de raiva animal em um morcego capturado em área urbana da capital. Ainda segundo a Semus, após a confirmação laboratorial, foram adotadas imediatamente todas as medidas de vigilância, controle e prevenção previstas nos protocolos do Ministério da Saúde.
A Semus afirma que, até o momento, não há registro de casos de raiva em humanos ou em animais domésticos relacionados ao episódio. As pessoas com possível exposição ao vírus foram identificadas, avaliadas e encaminhadas para atendimento, com indicação de profilaxia antirrábica conforme critérios técnicos vigentes.
Ainda de acordo com a Secretaria, os animais domésticos da residência foram avaliados pelas equipes de vigilância, encontravam-se sadios e com a vacinação antirrábica atualizada. Entre as ações adotadas estão o bloqueio vacinal de cães e gatos na área monitorada, avaliação dos animais, orientação aos responsáveis, monitoramento da presença de morcegos, acompanhamento dos contactantes humanos e articulação intersetorial com os órgãos competentes.
A Semus esclarece que a indicação de vacina e soro antirrábico segue rigorosamente os protocolos do Ministério da Saúde, considerando o tipo de exposição, o estado do animal envolvido e a avaliação clínica individual. A rede municipal, segundo a nota, possui fluxos definidos e unidades de referência para o atendimento antirrábico humano, incluindo a administração do soro quando indicado.