“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é denegar justiça a metade da população” – Bertha Lutz.
“Recusar à mulher a igualdade de direitos em virtude do sexo é denegar justiça a metade da população” – Bertha Lutz.
Desde 1977, oito de março é celebrado internacionalmente como o Dia da Mulher. A data é comemorada por influência de movimentos feministas, iniciados em 1917 na Rússia, quando as mulheres exigiram “pão e paz” em meio a guerra.
Em 2025, os casos de violência contra mulher no Brasil foram de 679.058 registro de acordo com o Ministério da Mulher. No Maranhão, de janeiro a março deste ano já foram registrados 26 casos de tentativa de feminicídio, um aumento de 420% comparado ao ano anterior durante o mesmo período (5 registros).
O que pode parecer apenas números acaba se tornando um luto profundo na vida de familiares e amigos.

Em abril de 2024, a jovem Idelany do Nascimento Pestana, de 30 anos, foi brutalmente assassinada com golpes de faca dentro de casa pelo ex-companheiro no bairro Alto da Esperança, em São Luís.
As investigações apontaram que Idelany foi morta logo depois de descobrir que a irmã sofria assédio sexual cometido pelo o agressor.
Não satisfeito com o término, o homem foi até a casa da ex-namorada, pulou o muro da residência, e matou a jovem a golpes de faca.
O crime foi levado à julgamento e o investigado foi condenado a 18 anos e seis meses de prisão.
Na época, a família da jovem ficou profundamente abalada, principalmente a mãe Da vítima, Izabel Pinheiro. Izabel lutou veemente por justiça durante todo o período de investigação.
“Nem no meu pior pesadelo eu imaginava isso. Foi o pior dia da minha vida. Eu acho que se eu viver mil anos, não irei viver coisa pior”, expressou a mãe.
Izabel faleceu um ano após a morte da filha.
A psicóloga Karolayne Oliveira concedeu uma entrevista ao Portal Difusora News e relatou que perdas como essa podem gerar ‘um luto traumático, marcado não apenas pela dor da perda, mas pela violência vivida’.
“Quando uma família perde uma mulher vítima de feminicídio, o impacto psicológico é devastador. As vezes a sensação de injustiça geram uma culpa sobre ‘o que poderia ter sido feito diferente’”, contou a psicóloga.
Dar continuidade a vida com a presença constante do luto pode ser uma estrada longa com barreiras de dificuldade, sendo “um processo lento e não linear”.
“Seguir em frente não significa esquecer, mas aprender a reorganizar a vida diante de uma ausência tão abrupta. Com acolhimento adequado, é possível ressignificar a dor, preservar a memória da vítima com dignidade e reconstruir projetos de vida, mesmo carregando a marca dessa perda”.
Rafaela de Sousa Nunes – morta a facadas pelo ex-companheiro, em Imperatriz. (2025)
Clenylde dos Santos Lobato – morta com mais de 10 golpes de faca pelo ex-companheiro, em Penalva. (2025)
Paula Queiroz – morta a tiros, em Paço do Lumiar. (2025)
Maria Domingas Fonseca dos Santos – morta após ter 90% do corpo queimado pelo companheiro, em São Vicente Ferrer. (2025)
Adriana Matos da Silva Souza- morta a tiros pelo ex-companheiro enquanto assistia uma partida de futebol. (2025)
Francinete de Souza da Silva – encontrada morta dentro de casa que morava com o marido, em São José de Ribamar. (2025)
Perguntada sobre o que explicaria o comportamento dos homens nas situações de agressões contra as mulheres, Karolayne explica que essas ações são sustentadas por fatores individuais, relacionais e, sobretudo, culturais.
“Muitos homens que impõem dominação sobre mulheres foram socializados dentro de crenças rígidas de superioridade masculina. Em diversos casos, a dificuldade em lidar com frustração, rejeição e perda cede a necessidade excessiva de distorções mentais cognitivas que justificam a violência como se fosse expressão de amor ou correção”, relatou.
A desigualdade de gênero que atinge o país registrou em 2025 uma taxa de 85% dos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes entre homens e mulheres.
Segundo a psicóloga, o que pode parecer individual “atinge filhos e familiares das vítimas, perpetuando ciclos intergeracionais de sofrimento psíquico”.

A enfermeira Sarah Julia Melo, de 29 anos, foi vítima de uma violência de seu ex-companheiro em fevereiro deste ano, em São Luís, e mostrou como denunciar é um ato de sobrevivência.
A vítima foi atraída até a casa do agressor com uma desculpa que a filha do casal estaria passando mal. Chegando no local, Sarah foi atacada com golpes de facas por todo o corpo.
“Eu entrei em luta corporal com ele e, durante essa luta corporal, ele tentava a todo custo furar o meu rosto, furar meus olhos. Eu lutei muito segurando a faca e, a todo momento, eu gritava, pedia ajuda. Dois vizinhos chegaram a subir, só que não se meteram. Ele ameaçou os vizinhos também, que não era pra fazer nada”, disse a enfermeira.
O ex-companheiro se entregou na Delegacia da Mulher em São Luís, onde foi cumprido o mandado de prisão preventiva que havia sido expedido contra ele. O caso segue sendo investigado.
O Estado do Maranhão possui 23 Delegacias Especializadas da Mulher, com implementações de núcleos de apoio às vítimas nas demais delegacias. A denúncia pode ser feita de forma anônimas pelo número 180.
Para além de existir, as mulheres resistem diariamente a massa opressora que insistem em tirá-las da sociedade. A luta que se iniciou em 1977 por direitos igualitários e reconhecimento social se prolonga até os dias atuais.