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Batuques, danças e toadas: nova geração da cultura do Maranhão já brinca nos arraiais

Preservar as manifestações populares é uma responsabilidade compartilhada entre mestres, brincantes e famílias inteiras

Foto: reprodução/Marco Sales Retratista

O som que ecoa, o brilho das indumentárias, as toadas que emocionam e os sotaques que atravessam décadas têm algo em comum no Maranhão: todos carregam uma missão silenciosa, mas fundamental. A de garantir que a cultura popular continue viva pelas próximas gerações.

Em um estado reconhecido pela riqueza cultural e por realizar um dos maiores e mais tradicionais festejos juninos do Brasil, preservar as manifestações populares é uma responsabilidade compartilhada entre mestres, brincantes e famílias inteiras.

No bumba-meu-boi, nas quadrilhas, no cacuriá, na dança portuguesa e no tambor de crioula, é comum encontrar crianças participando desde muito cedo. Algumas entram ainda no colo dos pais. Outras crescem acompanhando ensaios, aprendendo toadas e observando os mais velhos. Assim, a tradição passa naturalmente de pai para filho.

Cantador Alef Rodrigues Foto: redes sociais

A nova voz do Boi de Miritiua

Fundado em 2000, o Bumba-Meu-Boi de Matraca de Miritiua aposta justamente nessa renovação para manter viva sua história. Um dos exemplos é o cantador Alef Rodrigues, de apenas 18 anos, considerado uma das revelações do São João maranhense.

A relação dele com a cultura começou antes mesmo de aprender a ler. “A cultura começou comigo quando eu tinha três ou quatro anos. Minha primeira toada foi aos oito anos, em homenagem a Nossa Senhora da Conceição”, conta.

O amor pelo bumba-meu-boi nasceu dentro da própria família. A avó criou um boi em uma escola onde trabalhava como professora. O pai tornou-se vaqueiro e apaixonou-se pela brincadeira.

Quando criança, Alef improvisava maracás com garrafas e pedras para imitar os cantadores que admirava. Hoje, divide a responsabilidade de comandar o Boi de Miritiua e vê na cultura um projeto para toda a vida.

“Cultura é minha vida. Não apenas o bumba-meu-boi, mas todas as manifestações culturais. Gosto de aprender, de ouvir histórias e de entender como tudo começou. Cultura também é uma forma de contar a nossa história.”

Jhonathan Guilherme, de 12 anos

Três gerações unidas pelo Boi de Pindaré

No Bumba-Meu-Boi de Pindaré, tradição é uma palavra vivida diariamente. Fundado há 66 anos, o grupo é um dos pioneiros do sotaque da Baixada em São Luís. Ali, quatro gerações da mesma família compartilham a mesma paixão.

Raimundo Nonato Mendes, conhecido como Nato, começou a brincar no boi aos nove anos de idade. Hoje, aos 57 anos, é chefe de batuque do Boi de Pindaré e faz questão de transmitir o conhecimento para os filhos e para o neto.

O mais novo integrante dessa história é Jhonathan Guilherme, de 12 anos. Ele entrou no boi quando tinha apenas dois anos de idade, ganhou um pequeno pandeirão do avô e aprendeu observando os batuqueiros mais experientes.

“O objetivo sempre foi fazer a tradição continuar. Meu filho já brincava desde pequeno. Agora é a vez do meu neto. Queremos que essa cultura nunca acabe”, afirma Nato.

Para ele, incentivar os mais jovens é uma necessidade. “Hoje muitos jovens não querem aprender. Por isso é importante trazer as crianças para a cultura, ensinar desde cedo e mostrar que ela merece respeito.”

Mãe e filho abrilhatam arraiais Foto: Marco Sales Retratista

O amor de mãe que virou herança cultural

No Bumba-Meu-Boi de Orquestra Brilho da Lua, de São José de Ribamar, a cultura também fortalece os laços familiares. Há 18 anos no grupo, Patrícia Moraes encontrou no boi muito mais do que uma manifestação cultural.

“O boi não é só parte de mim. Ele me formou como pessoa, me ensinou valores e me deu pertencimento.”

Esse sentimento ganhou um novo significado quando o filho, Antony Cadu, passou a integrar o grupo como miolo mirim. “Desde que ele nasceu eu sonhava com esse momento. Hoje, quando vejo meu filho dentro do boi, é como se eu revivesse minha própria história.”

Para Patrícia, ver o filho participando das apresentações representa esperança. “A cultura só continua quando a gente passa adiante. Meu filho representa a continuação de uma história que começou muito antes de nós.”

Ela acredita que o maior presente que pode deixar para o filho é justamente essa herança cultural. “O bumba-meu-boi é sentimento, resistência e identidade. É orgulho de ser maranhense.”

Um patrimônio que continua vivo

Seja na voz de um jovem cantador, no batuque que atravessa quatro gerações de uma mesma família ou no olhar emocionado de uma mãe ao ver o filho brincar de boi, uma certeza se repete em todos os grupos culturais do Maranhão.

A tradição permanece viva porque continua sendo ensinada dentro de casa.

Muito além dos arraiais e dos meses de festa, o futuro da cultura popular maranhense está nas crianças que hoje aprendem com pais, avós e mestres a importância de preservar uma das maiores riquezas do estado.

É essa passagem de conhecimento entre gerações que garante que o som dos pandeirões, matracas, zabumbas, orquestras, o canto das toadas e o colorido dos brincantes e ecoem pelo mundo e continuem o Maranhão por muitos anos.

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