Portal difusoranews.com

Batismo do Bumba Meu Boi: o ritual que dá vida à maior manifestação cultural do Maranhão

Reprodução/TV Difusora

Considerado a principal manifestação cultural do Maranhão, o bumba meu boi inicia oficialmente a sua temporada junina por meio do batismo. Longe de ser uma mera formalidade turística, esse ritual representa uma profunda aliança espiritual e comunitária. No entanto, o avanço da indústria cultural e a dependência financeira de cachês estatais têm transformado essa tradição secular, empurrando-a para uma encruzilhada entre a fé e as regras do mercado.

Para entender os bastidores dessa manifestação, o Portal Difusora News ouviu a professora do curso de Rádio e TV e pesquisadora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Letícia Cardoso, autora da pesquisa Caminhos da Boiada, e o cantador João Batista Pires, veterano com 25 anos de experiência como cantador oficial no sotaque matraca.

O peso do ritual

Na tradição do bumba meu boi, o ritual representa o nascimento espiritual do animal, que recebe bênçãos ligadas tanto ao catolicismo popular quanto às religiões de matriz africana. Entre os brincantes, há a crença de que a ausência do batismo pode resultar em dificuldades financeiras, perda de integrantes ou problemas durante as apresentações.

“O boieiro acredita fortemente que, se não fizer o batismo e se não o fizer bem feito, a sua temporada junina será ruim e o grupo será castigado de alguma maneira”, explica Letícia Cardoso. Esse castigo costuma se manifestar na perda de integrantes, problemas financeiros ou falhas técnicas em que “tudo dá errado” nos arraiais.

O cantador João Batista Pires, do grupo Estrela de São João, relata que a atmosfera desse momento é única. “Na hora do batizado, é aquela emoção do boi. É o levantamento do animal para a temporada”, descreve João Batista.

O cantador destaca a grande responsabilidade que carrega.

“A gente está ali de frente a um público, trabalhando com o povo. Não podemos errar. De vez em quando cai um branco (esquecimento da letra), aí a gente imprensa na hora para o pessoal não sentir, mete outra letra e recupera na repetição”,

relata.

A tradição também influencia diretamente o repertório musical dos grupos. Segundo João Batista, existem toadas específicas para cada etapa do ciclo do boi.

As chamadas toadas de batizado são executadas exclusivamente durante o ritual de nascimento do animal. Já as toadas de temporada são destinadas às apresentações nos arraiais, enquanto as toadas de morte encerram simbolicamente o ciclo da brincadeira após o período junino.

Além da música, diversos grupos seguem orientações consideradas espirituais para a escolha de nomes, cores e rituais que serão adotados ao longo do ano.

Toda essa estrutura estética obedece às exigências das entidades espirituais. Letícia Cardoso exemplifica que, no Boi de Maracanã, os líderes recebem o nome a ser bordado no couro diretamente dos encantados. Já no Boi Brilho do Brasil (Boi da Floresta), segundo a pesquisadora, o nome permanece o mesmo todo ano, mas o grupo deve seguir ordens estritas, como vestir cores específicas ou realizar saudações em terreiros determinados.

Impacto econômico

Se a tradição rege que o boi deve nascer no tempo dos santos juninos, a realidade econômica impôs uma nova dinâmica. O sistema de auxílio evoluiu de “ajudas de custo” nos anos 1960 para a concessão de cachês oficiais categorizados pelo Estado. Hoje, essa engrenagem criou uma severa dependência financeira. “Os grupos já não têm mais formas de subsistência independentes. Eles ficam esperando os cachês do Estado e da prefeitura para poderem se apresentar”, aponta Letícia Cardoso.

De acordo com a pesquisadora, uma das principais mudanças observadas nos últimos anos é a antecipação dos batizados. Tradicionalmente realizados no período junino, muitos grupos passaram a promover o ritual meses antes para cumprir exigências relacionadas à contratação para eventos oficiais.

O cantador João Batista Pires, puxador oficial do Boi Estrela de São João, relata que o próprio grupo precisou alterar seu calendário. “Neste ano, o batizado aconteceu ainda no Sábado de Aleluia. Foi uma necessidade para que o grupo pudesse cumprir a programação da temporada”, explica.

Outra mudança apontada pela pesquisadora é o desaparecimento gradual do tradicional Auto do Bumba Meu Boi das programações oficiais. A encenação, que narra a história da morte e ressurreição do boi por meio dos personagens Pai Francisco e Catirina, foi substituída por apresentações mais curtas e voltadas ao formato dos grandes eventos.

Segundo Letícia Cardoso, a limitação do tempo de palco, geralmente entre 40 minutos e uma hora, inviabiliza a realização completa da narrativa teatral. “O auto praticamente desapareceu das apresentações públicas porque os grupos precisam adaptar seus espetáculos ao tempo disponível nos arraiais”, observa.

Até a escolha de padrinhos e madrinhas, segundo Letícia Cardoso, reflete a divisão entre o boi comunitário e o boi de mercado, variando conforme o perfil do grupo. Segundo a pesquisadora, nos grupos menores e comunitários, a homenagem costuma ser destinada a moradores, costureiras e colaboradores que ajudam na preparação da brincadeira ao longo do ano.

Já nos grupos de maior projeção, a preferência frequentemente recai sobre políticos, empresários e personalidades públicas, fortalecendo relações que podem contribuir para a obtenção de apoio financeiro e visibilidade.

“Em geral, pessoas, grupos menores, que são pouco assediados, por exemplo, escolhem pessoas que são importantes para a comunidade, que estão ali ajudando a abordar, ajudando a organizar a brincadeira, um vizinho que ajudou com uma bebida, com um lanche. Já nos grupos maiores, os padrinhos geralmente são escolhidos pelo critério da visibilidade que aquela pessoa possa dar para o grupo. Então, às vezes, é escolhido um artista, é escolhido um político”, pontua.

Mais lidas

Veja nossas notícias direto do seu Whatsapp

Quer ter acesso a todas as nossas notícias diretamente do seu Whatsapp? Então acesse já o nosso canal!

Entrar no canal

Voltar para o Início

Mais lidas