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20 anos da Lei Maria da Penha: “A culpa nunca é da mulher”, diz fundadora do Projeto Por Elas

Foto: Divulgação

Vinte anos após a criação da Lei Maria da Penha, o Brasil ainda enfrenta desafios para garantir proteção, acolhimento e autonomia às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Embora a legislação tenha fortalecido a rede de enfrentamento e ampliado os mecanismos de proteção, milhares de brasileiras continuam convivendo com diferentes formas de violência e, muitas vezes, enfrentam o medo e o julgamento ao buscar ajuda.

“A culpa nunca é da mulher. Nosso apelo é para que elas sejam respeitadas, tenham o seu tempo acolhido e não sejam julgadas pelas decisões que tomarem, porque quando se trata de violência contra a mulher, a responsabilidade nunca é da vítima.” A afirmação é da fundadora do Projeto Por Elas, Gabrielle Polary, em entrevista ao Portal Difusora News, ao refletir sobre os avanços conquistados pela legislação e os desafios que ainda persistem duas décadas após sua criação.

Criado em 2019, o Projeto Por Elas nasceu para combater a pobreza menstrual entre mulheres em situação de rua em São Luís, distribuindo kits de higiene pessoal para garantir mais dignidade durante o período menstrual. Com a pandemia da Covid-19, a iniciativa ampliou sua atuação e passou a atender também mulheres em situação de violência doméstica e familiar.

Hoje, a associação mantém parcerias com instituições da rede de proteção, como a Patrulha Maria da Penha, levando kits de higiene, cestas básicas, roupas, enxovais para bebês e brinquedos às mulheres em situação de vulnerabilidade. O trabalho também inclui orientação jurídica, acompanhamento psicológico e rodas de conversa voltadas ao fortalecimento da autoestima e da autonomia das participantes.

Segundo Gabrielle Polary, a proposta do projeto vai muito além da entrega de doações. “O que nós queremos não é praticar assistencialismo e unicamente fazer a entrega de um kit, mas possibilitar que gradativamente essas mulheres sejam reinseridas na vida social e, principalmente, nas suas próprias existências, trazendo novamente para si noções de autonomia, de autocuidado e de dignidade.”

A fundadora relata que a principal demanda recebida atualmente pela associação são denúncias de violência praticada por companheiros e ex-companheiros. Diariamente, chegam mensagens, áudios, vídeos e capturas de conversas que revelam agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais. Muitas dessas mulheres ainda não estão preparadas para denunciar formalmente os agressores e procuram o projeto, inicialmente, em busca de orientação e de um espaço seguro para desabafar.

Outro aspecto observado pela entidade é que a violência doméstica não faz distinção de classe social. Mulheres de bairros periféricos e também da elite maranhense procuram o projeto em busca de acolhimento, evidenciando que a violência de gênero atinge diferentes realidades.

Para a fundadora, essa realidade reforça que o combate à violência precisa envolver toda a sociedade e fortalecer os espaços de escuta às vítimas. “A gente recebe relatos de mulheres desde aquelas que moram nos bairros mais periféricos até mulheres da elite do nosso Estado. A violência contra a mulher não escolhe classe social.”

Além do atendimento às mulheres, o Projeto Por Elas prepara uma nova iniciativa voltada aos filhos das vítimas. A proposta é reunir editoras parceiras para distribuir livros de psicoeducação às crianças, incentivando desde cedo o respeito às mulheres, a igualdade de gênero e a prevenção da violência nas futuras gerações.

Para Gabrielle, os 20 anos da Lei Maria da Penha representam um importante avanço na proteção das mulheres brasileiras, mas também evidenciam que a legislação, por si só, não é suficiente. O fortalecimento das políticas públicas, da rede de acolhimento e da conscientização da sociedade continua sendo essencial para romper o ciclo da violência e garantir que mais mulheres encontrem apoio para reconstruir suas vidas.

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