As mortes dos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses, ampliaram as investigações sobre a assistência prestada no Hospital Odorico Amaral de Matos, o Hospital da Criança, em São Luís. Além do inquérito da Polícia Civil que apura o caso, o Ministério Público do Maranhão (MPMA) investiga denúncias de aumento de óbitos, supostas falhas no atendimento e irregularidades na gestão das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Nesta terça-feira (14), técnicos do Ministério da Saúde realizaram uma auditoria na unidade, enquanto o Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA) informou que também acompanha o caso.
A mãe dos bebês, Samila dos Santos, prestou depoimento à Polícia Civil e afirmou que os filhos foram vítimas de negligência durante o período em que estiveram internados. Emocionada, ela pediu justiça e cobrou melhorias no atendimento da unidade.
“Eu perdi dois filhos naquele hospital. O atendimento, a estrutura, tudo tem que melhorar. As crianças têm que ser mais assistidas”, disse em entrevista à TV Difusora.
Bento morreu primeiro. O laudo de óbito aponta insuficiência renal aguda, choque séptico, sepse pulmonar, pneumonia e pneumotórax bilateral. Dois dias depois, Bernardo morreu em decorrência de insuficiência respiratória, bronquiolite e pneumotórax, conforme o laudo médico.
Segundo o promotor de Justiça Herberth Costa, da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde, o Ministério Público conduz dois inquéritos civis sobre a situação do Hospital da Criança. Um deles apura o aumento no número de mortes registradas nas UTIs e possíveis falhas na assistência aos pacientes. O outro investiga a contratação da empresa piauiense IBMed para administrar as unidades de terapia intensiva, após a substituição da equipe médica que atuava no hospital.
De acordo com o promotor, o MP recebeu denúncias de falta de insumos, déficit de profissionais, precarização da assistência e possíveis casos de negligência médica. Ele afirmou ainda que uma perícia técnica identificou irregularidades no processo licitatório que resultou na contratação da empresa.
“Temos recebido denúncias de falta de insumos, de aumento de mortes e também de uma certa precarização na prestação de serviços médicos nas UTIs, havendo, inclusive, déficit de profissionais para atender à demanda”, afirmou Herberth Costa.
O Ministério Público informou que, em 2025, foram registradas 113 mortes no Hospital da Criança, sendo 101 nas três UTIs da unidade. Em 2024, segundo o órgão, ocorreram 39 óbitos nas UTIs, número que representaria um aumento de 159%.
Nesta terça-feira, equipes do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (Denasus), vinculado ao Ministério da Saúde, realizaram uma inspeção no hospital para verificar as denúncias. O diretor do Denasus, Rafael Bruchelas, informou que foram solicitados prontuários médicos, escalas de profissionais, documentos administrativos e a relação de óbitos ocorridos nas UTIs nos últimos 12 meses.
Segundo ele, o material será analisado para verificar se houve falhas na assistência e se a estrutura disponível era compatível com a demanda de pacientes. Caso as denúncias sejam confirmadas, as conclusões da auditoria poderão embasar providências por parte dos órgãos competentes.
“Vamos analisar prontuário por prontuário, a lista de óbitos que aconteceram nas UTIs nos últimos 12 meses e fazer o cruzamento com a escala de profissionais. Se as denúncias se confirmarem, a resposta precisa ser à altura”, declarou Rafael Bruchelas.
O Conselho Regional de Medicina do Maranhão também acompanha a situação. Em nota, o CRM-MA informou que aguarda o avanço das apurações e que adotará as medidas cabíveis caso sejam identificados indícios que justifiquem a atuação da entidade.
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (Semus) contestou os dados apresentados pelo Ministério Público. A pasta afirmou que não houve aumento de 159% nas mortes das UTIs e informou que os registros oficiais apontam 86 óbitos em 2024 e 79 em 2025, o que representaria uma redução de 8,2%. A secretaria também declarou que ampliou a capacidade do Hospital da Criança, com aumento de leitos, atendimentos e internações, e sustentou que a unidade atende aos parâmetros técnicos e legais.
Enquanto os órgãos de controle avançam nas investigações, Samila diz esperar que a morte dos filhos resulte em mudanças na assistência prestada pelo hospital.
“Eu peço justiça pelos meus filhos. Não quero mídia nem dinheiro. Quero que outras mães não passem pelo que eu passei. Que melhorem aquele hospital e coloquem profissionais capacitados, que realmente queiram salvar vidas”, concluiu.


